COLECÇÃO
AVENTURA
THE ISLAND OF ADVENTURE THE CASTLE OF ADVENTURE THE VALLEY OF ADVENTURE THE SEA OF ADVENTURE THE MOUNTAIN OF ADVENTURE THE CIRCUS OF ADVENTURE THE RIVER OF ADVENTURE THE SHIP OF ADVENTURE
Estas são as aventuras de João. Filipe, Dina, Maria da Luz e da Catatua Didi. Enid Blyton escreveu 8 histórias destes personagens entre 1944 e 1955 com a primeira história "Aventura na Ilha ".
A primeira edição portuguesa foi lançada pela Editora Meridiano, os livros eram em capa cartonada, no início dos anos 80 as Publicações D. Quixote fizeram novas edições mas, desta vez com a capa de cartolina. Os números dos livros não correspondem aos originais, aconselhando-se a ler pela ordem cronológica das suas publicações. Foram mantidas as ilustrações originais, que vinham da primeira edição, que por sua vez foram reproduzidas a partir dos livros originais inglesas. Ilustrações essas com uma excelente qualidade, com um belíssimo traço e todo um ambiente que nos ajuda a criar no nosso imaginário as situações vividas pelos personagens.

Após se terem lido os oito volumes que compõem esta série – Aventura  na Ilha (1944), Aventura no Castelo (1946), Aventura no Vale (1947), Aventura no Mar (1948), Aventura na Montanha (1949), Aventura no Barco (1950), Aventura no Circo (1952) e Aventura no Rio (1955) -, fica-se com a ideia de que poucas vezes terá Enid escolhido tão acertadamente um título para a sua série. Se por um lado temos a lógica simples do nome – afinal são livros que retratam aventuras protagonizadas por um grupo de jovens – podemos entrever também um significado mais profundo e não menos fascinante desse título: a própria aventura e encanto de penetrar em mundos desconhecidos e inquietantes, até mesmo em países fantasiosos, isto tendo em conta a época em que foram escritos e o ambiente britânico dos leitores a quem foram originalmente destinados. Assim, a sugestão implícita na palavra “aventura”, se bem que não fosse entendida na sua totalidade por um miúdo (embora fosse por ele perfeitamente vivida) adquire toda a sua plenitude aos olhos de um adulto, no meu ponto de vista.

Como comprovativo do que referi no parágrafo anterior, já em miúdo, quando lia e relia as
“Aventuras” vezes sem conta, ficava maravilhado com os cenários escolhidos por Blyton (e com uma vontade enorme de os conhecer pessoalmente…), principalmente aqueles envolvendo regiões distantes ou exóticas, quer fossem vales desesperadamente isolados e desabitados nos Alpes austríacos; miríades de ilhas selvagens, repletas de aves marinhas, ao largo da costa norte da Escócia; as pachorrentas e quentes terras mediterrânicas; as curiosas gentes e paisagens do Médio Oriente, com surpreendentes rios indomáveis; ou mesmo imaginar como seria visitar um país imaginário chamado Tauri-Héssia. Claro que, como vim a descobrir mais tarde, algumas das descrições feitas por Enid são forçadas ou mesmo roçando o improvável, caso das ilhas escocesas que não são assim tantas (pelo menos no local aproximado identificado por ela) ou dos rios escoando-se por gargantas rochosas imensas, ou incomensuravelmente largos, do Médio Oriente, só para citar dois exemplos. Mas nada disso importa, pois o fascínio inerente a esses cenários de sonho é um dos objectivos desta colecção, e daí assentar-lhe como uma luva o nome que tem.

Outra mais-valia tem a ver com a feliz escolha do ilustrador por parte da autora. Stuart Tresilian elaborou um naipe de gravuras de excelente qualidade, muitas de página inteira, bastante “preenchidas”, proporcionando um alto nível de pormenor (ao contrário da ilustradora dos “Cinco”, Eileen Soper, também com bons resultados mas com traços curtos e rápidos, ao estilo da caricatura) e transmitindo bem um ambiente de época, que ajuda à caracterização das personagens. Quando esta série foi publicada em Portugal, a editora
manteve felizmente o ilustrador original, bem como as espantosas capas cartonadas (que podem ser vistas no “site” Mistério Juvenil, no separador dedicado esta colecção) que, em meu entender, também terão a sua quota-parte no grande sucesso da série, e são as melhores capas das séries grandes de Blyton. Como referi no fórum de outro “site”, o poder de sugestão é tal que se sente a macieza dos prados da Ilha das Trevas, ouve-se o ensurdecedor barulho das aves marinhas na Ilha das Asas, estremece-se perante as emanações coloridas e ameaçadoras que se libertam das montanhas galesas ou se fica humedecido com os salpicos provenientes do barco a motor, sulcando o rio rumo a “Teo Gra”.

João (Jack), Filipe (Philip), Dina (Dinah), Maria da Luz (Lucy-Ann) constituem o grupo de jovens em torno dos quais se desenrola a intriga, acompanhados da inseparável catatua Didi (Kiki). Trata-se de um grupo bem sólido de personagens, sem haver o domínio preponderante de uma delas “abafando” outras, como acontece com Júlio nos “Cinco”, Pedro nos “Sete”, ou o “Gordo” na colecção “Mistério” (Cinco Descobridores). Na série “Aventura” existe um duo forte de rapazes, apenas com ligeira presença mais incisiva de João, mas mais por ser um ano mais velho (somente a título de curiosidade, e no meu ponto de vista, se Enid juntasse num grupo João, Chico (Mistério “R”) e “Gordo”, teria formado o trio ideal de jovens, combinando as diversas características das suas personalidades, com fortes capacidades de liderança e valores morais de relevo). As raparigas têm personalidades muito diferentes entre si mas Enid atribuiu-lhes personalidades que convencem muito mais do que as jovens dos “Cinco”, por exemplo, pois têm maneiras de ser que esperaríamos encontrar em qualquer jovem “real”, não sendo tão extremadas como Maria José (Zé) e Ana. A relação forte entre os irmãos João e Maria da Luz sempre me pareceu natural, talvez por a minha irmã e eu também termos um relacionamento excelente, e assim a candura de Maria da Luz tornou-a para mim uma personagem importante, no universo Blyton.

A catatua Didi funciona muito bem como contraponto cómico/sarcástico da intriga, a ponto de integrar uma categoria aparte no conjunto dos animais de estimação criados pela escritora, pois como ave palradora que é tem a capacidade de vocalizar ruídos, palavras ou frases. Embora os leitores jovens achem imensa piada às suas intervenções sempre a propósito, torna-se evidente que Enid exagera ao atribuir-lhe emoções e sentimentos muito humanizados, para além do óbvio facto das catatuas nem serem, dentro das aves palradoras, dos pássaros mais faladores.

Além dos protagonistas referidos, surge um adulto com um estatuto diferente do desempenhado por outros adultos nas restantes séries de aventura/mistério. Jaime Cuningham (Bill Cuningham), que se identifica como um improvável Jaime Smugs quando conhece os miúdos no primeiro livro, é o companheiro ideal, com um relacionamento de igual para igual com eles sem os naturais constrangimentos de os arrastar perigosamente para situações difíceis. Deste modo a liberdade de Enid construir intrigas mais complexas, no seio de cenários mais “adultos” (conspirações políticas e jogos de poder, espionagem militar, tráfico de armas ou de arte sacra, …), é muito maior, com a auxílio do artifício do “agente secreto de elite”,
facto muito bem explorado pelo tradutor português quando optou pelo nome “Jaime”, sugerindo imediatamente … James Bond. Claro que Enid exagera mais uma vez, fazendo-nos interrogar sobre o porquê de Jaime ser o responsável pela única célula de investigação britânica que é referida na série, ocupando-se de crimes tão díspares como aqueles mencionados. De igual modo, parece que todos os criminosos deste mundo têm um só objectivo nas suas vidas – liquidar esse homem…. (já em miúdo achava um pouco estranho o pobre do Jaime andar sempre na berlinda!).

Apesar de inicialmente Blyton ter projectado apenas seis volumes, houve alegadamente pressões por parte dos seus fãs no sentido da autora continuar a série. Surgiram assim os últimos dois volumes, com a mesma qualidade dos precedentes, em que Jaime acede ao pedido dos quatro miúdos e casa com Lia Mannering [Allie (Allison) Mannering] numa das demonstrações mais evidentes da tentativa de Enid manter o tema dos relacionamentos amorosos como um não-assunto. Assim, a banalização do tema tabu é tão intensa que chega a ser cómica, apresentando o relacionamento entre os dois como um facto consumado e baseado em razões que o reduzem quase como a uma ida à feira se tratasse.

Em termos da caracterização de personagens, posso aduzir que Enid, pertencente a uma geração que assiste pesarosa ao desmoronar do poderoso Império britânico e à consequente perda de influência do Reino Unido em detrimento dos EUA, ainda demonstra o complexo do “Rule Britania”, ou seja, o empolgar da cultura britânica, seu sistema escolar, seu modo de vida, etc., subalternizando totalmente as outras culturas. Sendo assim, jovens de outros países retratados na série (por exemplo, o príncipe Gustavo – “Gustavinho parvinho”, na opinião cáustica de Didi - , o jovem grego Luciano, …) são definidos como fracos de carácter, mimados, mentirosos, em suma, pejados de traços de personalidade negativos. Por outro lado, os vários criminosos são oriundos principalmente da América Latina, da Europa meridional e Médio Oriente, ou conotados com povos germânicos e Japão. Relativamente ao que foi dito, relembro que estes livros foram escritos no final ou no rescaldo da 2ª Guerra Mundial, em que existia em Inglaterra um forte sentimento de desconfiança para com estrangeiros, exacerbado no que toca às potências do Eixo (Alemanha, Itália, Japão), contra quem os Aliados combateram. Por exemplo, na “Aventura na Montanha” os criminosos são indivíduos com nomes nitidamente germânicos bem como japoneses. È caso para dizer que só faltam os italianos… Por outro lado, na Aventura no Vale há a denúncia subentendida dos tormentos que terão sido sofridos pela população austríaca aquando da anexação alemã, através da descrição de três austríacos.

Quanto a traços gerais de personalidade dos quatro jovens verifica-se que Enid insiste na vantagem indiscutível (no seu modo de ver) da educação fria e rígida britânica no desenvolvimento de um carácter forte, como já referi, transmitindo a ideia, comum a outras séries, que aspectos como a honestidade, lealdade, coragem, sentido de entreajuda, etc., por muito louvável que seja a divulgação desses valores, seja apanágio quase exclusivo de “His Majesty’s lands”. Mas paralelamente a isso, há o aspecto fascinante do amor pela vida selvagem, protagonizado por João, um apaixonado observador de aves, e Filipe, com um talento especial de lidar com animais selvagens e entusiasta da vida animal. Aliás, Blyton serve-se da personagem de Filipe para astuciosamente nos hipnotizar e cativar, tal como Filipe o fazia com os seus protegidos. E esta foi uma das razões pelas quais fiquei “preso” à série: o fascínio sentido de poder assistir aos poderes quase mágicos e encantatórios de Filipe, quase que equivalia ao fascínio da intriga em si.

Finalmente, algumas palavras relativamente a alguns pontos da estruturação da intriga. No primeiro livro (que curiosamente foi sempre o de que gostei menos) a caracterização das personagens principais é notoriamente lenta, ocupando cerca de 60% do livro, surgindo Jaime Smugs no meio do livro, arrastando ainda mais o desenvolvimento da acção. Nos outros livros o seu “leitmotiv” tarda em arrancar também, perdendo Enid algum tempo a preparar a acção e a caracterizar os cenários. No entanto, como são livros mais longos (cerca de 230-240 páginas) do que os das séries precedentes – “Segredo” (com a qual esta série mantém uma relação bastante interessante, de que noutra oportunidade falarei) e “Cinco” –, e com enredos mais complexos e cativantes, este aspecto negativo dilui-se um pouco. Em resumo, e como diriam os contemporâneos de Blyton, “a jolly good read, I’d say”…

Por António Viana, in Jornal Mistério Juvenil nº 1









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