A
Patsy e o William
estavam ocupados a montar a pista de comboios no chão do quarto de brinquedos.
Demorou muito tempo porque havia muitos carris para encaixar, e alguns eram
um bocado difíceis.
- Depois de montar todos os carris, vamos pôr os sinais, a estação
e o túnel. - disse a Patsy. É uma bonita pista de comboios, não
é William?
Sem dúvida que era. Pertencia ao Tio Ronnie, que viajou para o estrangeiro
e lhes tinha oferecido a pista com que tinha brincado em rapaz. Ele teve todo
o cuidado possível com a pista e tudo estava como novo.
Finalmente todas as linhas estavam encaixadas: a estação estava
colocada, com pequenos bagageiros e passageiros à espera na plataforma,
e o túnel encontrava-se por cima de uma das partes da linha.
- Agora os sinais e depois podemos pôr a locomotiva a andar nas linhas
com as carruagens. - disse o William.
Patsy olhou para o relógio para ver que horas eram. E soltou um grito.
- Oh, Meu Deus! Olha que horas são. Só faltam cinco minutos para
irmos para a cama - e logo agora que chegamos à melhor parte de todas
- pôr o comboio a andar!
O William franziu as sobrancelhas.
- Esta coisa de ter horas para deitar! Parece que temos sempre que ir para a
cama mesmo quando estamos no meio de algo divertido. Ontem tivemos que ir para
a cama antes de acabar os quadros que estávamos a pintar.
- E na noite anterior não consegui acabar a história que estava
a ler. - disse a Patsy. O relógio é aborrecido. Ele corre muito
depressa.
- O que é que a Mãe está a fazer? - perguntou depressa
o William.
- Ela está a esvaziar os cestos velhos no patamar. - disse a Patsy, surpreendida.
Porquê?
- Bem, sendo assim ela não pode adivinhar que horas são. - disse
o William, e levantou-se do chão. Dirigiu-se ao relógio e rodou
os ponteiros para que em vez de marcarem 19:15, marcavam 18:15!
- Já está! - disse o William. Ainda são 18:15. Temos mais
uma hora para brincar!
- Oh, William! - disse a Patsy, chocada. Não podes fazer isso.
- Bem, já fiz. - disse o William. A Mamã hoje não está
a usar o relógio porque o vidro está partido, e ela levou-o ao
relojoeiro. Ela virá ver as horas neste relógio - e vai pensar
que está certo - por isso teremos uma hora inteira extra para brincar!
A Patsy não disse mais nada. Ela queria a hora extra. Talvez a Mãe
nunca desconfiasse.
A Mãe falou do patamar pouco tempo depois.
- Tenho a certeza que está quase na hora de ambos irem para a cama, os
dois. Que hora marca o relógio?
William olhou para ele.
- São 18:35. - respondeu o William.
- A sério? Mas com certeza que é mais tarde que isso? - disse
a Mãe. Ela colocou a cabeça entre a porta aberta e olhou fixamente
para o relógio. Meu Deus, que extraordinário, é verdade
que marca 18:35. Acho que parou?
- Não, não parou. - disse o William sem olhar para a Mãe.
Ele depressa se sentiu um bocado envergonhado. E a Patsy também. Ela
ficou com a cara muito vermelha e a mãe imaginou porquê.
- Bem - acho que me enganei nas horas. - disse a Mãe, e voltou ao que
estava a fazer. As crianças não disseram nada uma à outra.
Ambos desejaram não ter atrasado o relógio daquela forma - tinham
enganado a Mãe, e isso era uma coisa horrível de fazer.
- Achas que devíamos contar à Mãe o que fizemos? - perguntou
a Patsy, passado algum tempo.
- Não. - disse o William. Já a enganámos e agora podemos
muito bem aproveitar a hora extra.
Sendo assim não disseram nada à Mãe. Eles foram para a
cama às 20:15 em vez das 19:15, muito cansados - apesar do relógio,
como sabemos, marcar apenas 19:45!
Na manhã seguinte o relógio voltou de novo ao normal. Quando as
crianças ouviram a badalada das oito horas, ao longe na cidade, o relógio
também marcava oito horas. Como é que ele tinha voltado à
hora certa? Eles olharam para a Mãe, questionando-se se ela diria alguma
coisa sobre isso, mas ela não disse nada.
Eles foram para a escola como era costume, ficaram lá para almoçar,
e regressaram para o chá. Fizeram os trabalhos de casa e depois foram
para o quarto de brinquedos para continuar a brincar com a pista de comboios.
Parecia muito divertido, é certo, toda ela encaixada no chão.
- Eu fico com uma locomotiva e tu ficas com a outra. - disse o William. Eles
tinham sorte porque havia duas locomotivas, e era muito divertido pôr
as duas a andar e trocá-las duma linha para outra mesmo quando parecia
que iam bater uma na outra. Brincavam há pouco tempo, quando a Mamã
abriu a porta.
-Já não têm muito tempo. - disse ela. Aproveitem bem o tempo
antes de irem para a cama.
As
crianças ficaram admiradas. Como, certamente não podiam ser mais
que seis horas! Eles mal tinha tido tempo para brincar um bocado! Eles olharam
para o relógio.
- Como - o relógio marcava 19:05! - gritou a Patsy. Não podem
ser 19:05. Simplesmente não pode.
- Não - não pode ser. - disse o William. Mas era verdade que o
relógio marcava 19:05.
- Achas que devo atrasá-lo de novo? - perguntou o William.
- Não - não faças isso. - disse a Patsy. Por um lado, a
Mãe já viu as horas - e por outro lado não a quero enganar
outra vez. Senti-me horrível com isso. Acho que devíamos ter confessado
tudo quando ela nos veio dar o beijo de boa-noite - e não o fizemos.
Eles discutiram sobre o tempo por
alguns momento, depois a Mãe chamou-os do quarto de banho.
- Crianças, que horas marca o relógio? Tenho a certeza que já
está na hora de irem para a cama?
Eles olharam para
o relógio. Ele marcava 19:15.
- Mãe, o relógio marca 19:15. - respondeu o William. Mas não
pode ser! O que aconteceu ao relógio? Tenho a certeza que não
está certo.
Meu Deus - já são 19:15. - disse a Mãe. Bem, vocês
têm mesmo que vir. Arrumem tudo depressa e venham. Podem deixar as linhas
encaixadas, fiquem descansados.
Por isso as crianças tiveram que deixar a pista de comboios antes de
terem posto as locomotivas a andar mais do que uma ou duas vezes à volta
nas linhas. Ficaram muito desapontados.
Tomaram banho, escovaram os dentes e o cabelo, e meteram-se na cama. A Mãe
disse que lhes ia levar um prato de sopa.
Enquanto se sentavam na cama, ainda muito tristes, o William ouviu o relógio
da igreja que começava a tocar. Ele ouviu e contou.
- Uma - duas - três - quatro - cinco - seis - sete - como, só tocou
sete vezes. São sete horas, e não oito horas.
- Viemos para a cama uma hora mais cedo. - disse a Patsy.
-Mãe! - chamou o William. O relógio da igreja só tocou
sete vezes. Não são oito horas. São sete. Perdemos uma
hora inteira de recreio.
- O relógio do
quarto de brinquedos marca oito horas. - disse a Mãe. Ontem vocês
foram para a cama segundo as horas desse relógio, não foram
- por isso hoje vai acontecer o mesmo.
A Mãe parecia um bocado severa. A Patsy olhou para ela e começou
a chorar.
- Mãe! Ontem atrasámos o relógio para termos mais uma
hora para brincar. Fomos terríveis!
- Sim, foi uma coisa horrível. - disse a Mãe. Na verdade eu
pensei que era apenas uma partida e que me iam confessar tudo, sabem, quando
lhes dei o beijo de boa-noite. Depois vi que vocês só me queriam
enganar. E agora o relógio pagou-vos na mesma moeda. É uma hora
mais cedo em vez de uma hora mais tarde.
- Mãe, - disse o William - eu acredito que nos pregou uma partida,
não foi? Se não foi a Mãe, o que aconteceu ao relógio.
- É claro que lhes preguei uma partida. - disse a Mãe, rindo.
Exactamente a mesma partida que me pregaram a mim, mas de forma diferente.
Agora comam a sopa e vão dormir.
- Mãe, desculpe. - disse a Patsy, coçando os olhos. Senti-me
horrível com tudo isto. Fico contente por também nos ter pregado
uma partida - agora estamos quites!
- Sim - estamos quites!
- disse a Mãe, e beijou-a e ao William também. Vocês ganharam
uma hora e perderam uma hora, e talvez tenham aprendido uma lição
- sendo assim não falemos mais nisso.
Nunca mais falaram nisso - e não fique surpreendido por ouvir que,
desde então, o relógio do quarto de brinquedos nunca mais se
comportou de forma tão estranha!
FIM
O QUE ACONTECEU AO RELÓGIO
(in Sunny Stories no. 445 Dec.1948)
Este
conto foi traduzido para português porque não existe a sua edição
em Portugal.
Colaboração
na Tradução: Alberto Oliveira





