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Johnny Guitar - Nicholas Ray [1954]

 
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rui sousa



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PostPosted: Fri Sep 06, 2013 1:08 pm    Post subject: Johnny Guitar - Nicholas Ray [1954] Reply with quote



O filme de eleição do crítico de Cinema e histórico diretor da Cinemateca Portuguesa João Bénard da Costa (cinéfilo por excelência), «Johnny Guitar» é um western inegavelmente original, marcante e pioneiro, porque não cede ao cansativo, lucrativo e gasto padrão americano da época em que foi feito, em que este género cinematográfico dominava no país e as temáticas implicavam um conservadorismo maior e uma constante repetição de histórias e situações (índios contra a cavalaria, cavalaria contra os índios... obviamente que há muitas - e boas - exceções à regra: «Rio Bravo», «O Comboio Apitou Três Vezes», «O Homem que matou Liberty Valance», «My Darling Clementine», etc). E porquê a sua originalidade? Isso deriva, desde logo, pelo facto de quem protagonizar esta "coboiada" ser uma mulher, e logo uma Grande atriz (Joan Crawford) que enche o ecrã de uma forma arrebatadora. Depois, há Nicholas Ray, o célebre e criativo cineasta que, um ano depois, realizaria o filme que tornaria James Dean num símbolo ainda maior da juventude dos anos 50 e 60 (e de muita miudagem de hoje em dia - que, propriamente, nunca viu as três fitas com este ator, mas adora-o mais pela imagem dele, propagandeada por frases nas redes sociais e montagens de e-mails), «Fúria de Viver» («Rebeld Without a Cause») e que, quatro anos antes, dava a Humphrey Bogart um dos melhores papéis da sua carreira com «Matar ou Não Matar» («In A Lonely Place»). Já estes dois títulos têm uma coisa em comum com «Johnny Guitar», e que mostra as ideias e as mensagens que Ray queria passar para os seus espectadores nos anos áureos da sua carreira: a rebeldia em relação a Hollywood, tanto no facto de, no filme com Dean, abordar a problemática "Pais e Filhos" do ponto de vista dos segundos, não idealizando uma poesia de "oh meu Deus, nos EUA tudo é perfeito", tanto na história com Humphrey Bogart, onde Ray critica Hollywood graças à história de um argumentista cinematográfico e das dificuldades impostas pelo seu trabalho e pelos seus "financiadores". E em «Johnny Guitar», Vienna (Crawford), a proprietária de um pequeno "saloon", com bebida e jogos, e que domina toda a ação do filme e todos os outros personagens (inclusivamente, aquele que dá título à fita - um ex-pistoleiro agora transformado em guitarrista, contratado por Vienna para animar o "saloon Vienna's", mas que está ligado a ela sob circunstâncias misteriosas, interpretado por Sterling Heyden, um ator sobrevalorizado mas que fez outros desempenhos memoráveis em «Dr. Strangelove» e «O Padrinho», por exemplo -, e talvez assim chegaram a esse nome para o filme por acharem que Vienna não seria um nome tão sonante para intitular esta obra prima), que dela dependem para "sobreviver"... na tela. «Johnny Guitar» é uma história de amor(es), enganos e oportunismos, onde a memória do tempo e do passado deixa uma mágoa muito grande ao presente, e acaba por influenciar muito Emma (Mercedes McCambridge), a "vilã" da trama, que pretende, sem olhar a meios, arruinar e destruir o legado de Vienna.

Com uma banda sonora fascinante (de Peggy Lee - que canta a canção do filme - e Victor Young) e uma fotografia magnífica (da autoria da visão de Harry Stradling, que antes trabalhou em alguns clássicos iniciais de Alfred Hitchcock - dos primórdios da época de ouro de fama e glória do realizador "Mestre do Suspense" -, como «Jamaica Inn» e «O Sr. e a Sra. Smith», e depois de «Johnny Guitar, em musicais como «My Fair Lady - Minha Linda Lady» e «Hello, Dolly!», que popularizou a canção homónima e recordista de vendas cantada por Louis Armstrong), e o uso muito expressivo da cor, que Ray voltaria a por em prática, e ainda bem, noutros filmes posteriores (como «Rebeld Without a Cause»), «Johnny Guitar» é um clássico do Cinema, e um clássico dos Grandes e imortais Westerns criados por Hollywood, que ainda funciona, ainda maravilha, ainda fascina e ainda rejubila no ecrã. Os fabulosos diálogos e toda a atmosfera do final de uma era e início de outra (com a chegada do caminho de ferro, que irá mudar aquela cidade para benefício de Vienna, que deseja enriquecer com o desenvolvimento que este meio de transporte vai trazer para aquele local - e para ódio de Emma, que perde cada vez mais escrúpulos e racionalidade, à medida que a rivalidade que sente para com Vienna aumenta), tão bem filmada com o espírito épico e poético (com a câmara a apanhar viva e atentamente todos os pormenores dos cenários, das interpretações e do argumento) e a montagem excecional do filme... tudo isto faz de «Johnny Guitar» uma fita onde tudo bate certo, onde a receita final sai sensacional, onde o Cinema ganha aquela dimensão rara que poucos conseguem alcançar. Se Joan Crawford, disso não haja dúvida, é a mulher mais importante dos westerns (e a sua Vienna, uma das mais ricas personagens de toda a cinematografia norte-americana), menos prestigiado não fica todo o restante elenco (no qual, para além dos outros co-protagonistas já citados, podemos ver algumas aparições curiosas, como Ernest Borgnine - que mais tarde faria «Doze Indomáveis Patifes» e «A Quadrilha Selvagem», de Sam Peckinpah), escolhido a dedo para obter a qualidade que o filme nos proporciona de uma forma tão fantástica.

«Johnny Guitar» é o melhor exemplo do classicismo à la EUA, sem ser "clássico" no sentido do termo de "filme-velho-que-perdeu-o-interesse-e-que-só-serve-para-nostalgia". É um filme que, espero eu, se torne eterno. E se aguentou mais de meio século e continua a ser excecional, mais umas gerações deve, pelo menos, conseguir continuar a atrair. É um filme que, apesar de não ser um épico que consome grandes milhões de dólares como Hollywood fazia na altura (e que hoje continua a executar, só que agora têm efeitos especiais pelo meio), consegue sê-lo com muito pouco. Porque toda a excelência dos escassos recursos existentes possibilitou que isso acontecesse. Repleto de tensão, onde os dois lados da medalha são postos em confronto (a população e a alienação da mesma por parte de Emma, VS Vienna, Johnny Guitar e um grupo de bandidos que a ela prestam serviço), «Johnny Guitar» é um espetáculo de filme, com uma das personagens mais enigmáticas, fascinantes e inesperadas da Sétima Arte, e que tentou abrir um espaço merecido para as mulheres no mundo do Cinema, dando a Joan Crawford um papel sério, muito humano, e que poucas atrizes, na época, conseguiriam conquistar. E no meio de tantas frases emblemáticas e tantas cenas memoráveis, a duração de «Johnny Guitar» passa num instante. É pena, pois para mim, tornou-se um daqueles filmes que nunca gostaria que tivessem um fim. Ficaria a assistir a Vienna, Johnny, Emma, durante muito, muito tempo. Eis o melhor do Cinema.

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Last edited by rui sousa on Fri Sep 06, 2013 1:09 pm; edited 1 time in total
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rui sousa



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PostPosted: Fri Sep 06, 2013 1:09 pm    Post subject: Reply with quote

E há tanto mais para se falar sobre esta obra prima, em termos sociológicos e simbólicos, e as representações alegóricas de cada personagem... infelizmente não tenho jeito para isso. Ficam aqui as palavras do próprio João Bénard da Costa. Talvez serão mais esclarecedoras do que este meu artigo.
João Bénard da Costa

E uma interessante introdução de Martin Scorsese ao filme:
http://www.youtube.com/watch?v=PAw7y76awqk
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