Fórum Mistério Juvenil Forum Index Fórum Mistério Juvenil
Grupo dos amigos do Mistério Juvenil
 
 FAQFAQ   SearchSearch   MemberlistMemberlist   UsergroupsUsergroups   RegisterRegister 
 ProfileProfile   Log in to check your private messagesLog in to check your private messages   Log inLog in 

Manhattan - Woody Allen [1979]

 
Post new topic   Reply to topic    Fórum Mistério Juvenil Forum Index -> O CINEMA E O CINEMA PORTUGUÊS
View previous topic :: View next topic  
Author Message
rui sousa



Joined: 13 Dec 2006
Posts: 1203
Location: Nasci no Porto mas vivo em Lisboa

PostPosted: Sun Sep 15, 2013 10:08 pm    Post subject: Manhattan - Woody Allen [1979] Reply with quote



Woody Allen não ficou satisfeito com o resultado final deste seu filme, «Manhattan», e pediu até à sua distribuidora que o não lançasse. E nas suas próprias palavras, anos mais tarde, referiu-se a este filme dizendo: "eu só pensei: nesta altura da minha vida, se isto é o melhor que consigo fazer, eles não deviam dar-me dinheiro para fazer filmes". Contudo, o cineasta americano, que hoje já realizou mais de quarenta filmes, não poderia imaginar o quão popular e reconhecido seria esta sua obra, tida como uma das suas melhores. «Manhattan» é um daqueles casos felizes em que a opinião do público diverge com a opinião do artista do "produto" artístico em questão, e ainda bem. «Manhattan» constitui, além de uma belíssima ode à cidade que dá nome à fita, tão bem ambientada pelos sons da autoria de George Gershwin (regravados propositadamente para o filme, algo que não é muito comum na filmografia de Woody Allen - ele muitas vezes limita-se a ir rebuscar os clássicos sonoros que tem bem guardados nas prateleiras lá de cada), uma das obras mais duradouras e inteligentes do seu autor. "Vítima" de um culto gigante e de uma identificação constante por parte dos seus fãs (já para não falar do estatuto de ícone conquistado pela imagem que ilustra o cartaz do filme), «Manhattan» é um dos grandes tesouros de Woody Allen, e mesmo um dos seus filmes mais bem conseguidos. Mesmo que ele continue a achar o contrário. Filmado a preto e branco e, caso raro em Woody Allen, no formato "ultra widescreen" (em CinemaScope é que esta obra ficaria espantosamente deslumbrante), «Manhattan» é protagonizado por um dos mais famosos neuróticos/personas de Woody Allen (Isaac, um argumentista e escritor com demasiados problemas na sua cabeça), uma pessoa algo irresponsável (com os outros, nunca consigo mesmo - daí ser também egocêntrico), cheio de complexos sobre si e sobre tudo o que o rodeia, e que se mete e intromete numa história de amores, desamores e filosofias da vida e do próprio romantismo, com uma inspiração rara que podemos ver e encontrar no autor e no próprio Cinema Americano deste e doutro tempo. É também um retrato das relações humanas (e, se há um autor que soube mesmo tratar a realidade na Arte das Fitas, é Woody Allen, sem sombra de dúvidas - nunca os diálogos foram tão reais e tão "palpáveis" para o espectador como em muitos destes seus grandes filmes), tal como muitos outros feitos por Allen, mas é um dos seus melhores porque é um dos mais inteligentes, que não se limita a chegar a um fim depois de uma série de consequências que o fazem acontecer: «Manhattan» tem muito mais do que isso na sua parte humana, e que vai muito para além das deliciosas "quotes" proferidas pelas personagens e tão bem escritas por Allen. «Manhattan» é uma obra extremamente filosófica e profunda, que serve como um perfeito guia de estudo para diversas disciplinas académicas, para além de ser um guia para a própria existência do Homem e do seu valor no quotidiano. A peça da Vida está toda neste filme e em todos os brilhantes momentos que nela podemos contemplar.

Isaac, de quarenta e um anos, tem uma namorada, Tracy, muito mais nova que ele (17). Ele é um tipo que não sabe o que fazer e que está encurralado por todos os lados, quer profissional quer emocionalmente (porque depois ainda se apaixona pela ex-amante - Diane Keaton - do seu melhor amigo), e tudo porque deixa a Razão meter-se demasiado nos seus instintos. Será isto mesmo assim? Talvez sim, talvez não, mas «Manhattan» lida muito com a racionalidade humana e com as consequências que o seu uso excessivo e não moderado podem trazer a quem dela dependa. Porque se o ser humano vive, principalmente, de emoções, como podemos equilibrar a nossa cabeça com aquilo que sentimos verdadeiramente, criando as coisas que fazem a vida valer a pena (uma das coisas com as quais Isaac se questiona, ao longo do filme). Emoções essas que (para além do papel da cultura e da sociedade a que pertencemos) condicionam os nossos gostos pessoais (discutidos de uma maneira muito séria em alguns momentos de «Manhattan», principalmente quando as personagens de Allen e de Keaton - uma das suas mais refinadas musas cinematográficas do cineasta - se confrontam... culturalmente) e as tendências que temos para analisar, ou "preconceitualizar", certas obras ou produtos mesmo sem os conhecermos devidamente. «Manhattan» fala por isso, também da Arte e da aderência à mesma por parte das pessoas. Talvez Allen pusesse aqui em confronto os gostos dos próprios espectadores dos seus filmes e dos motivos que os levam a ver cada nova fita que realiza, e por isso este é um daqueles tesouros do realizador que têm tudo o que gostamos no génio cómico americano. A fotografia é fantástica, neste retrato sociológico da América, onde os tons escuros e "incolores" retratam de forma perfeita o aparente caos da cidade de Manhattan e do caos do ser Humano, ordens por decifrar agora e sempre, parafraseando José Saramago. Em «Manhattan» contrastam-se a beleza das imagens e da música com a rutura, ou a turbulência, das diversas relações, amorosas ou de amizade, que nos são apresentadas. Numa cidade em constantes mudanças, onde os pequenos problemas ocupam o espaço daquilo que verdadeiramente importa (na opinião de cada um, claro), «Manhattan» é uma obra muito inteligente que, a par de «Hannah e as suas Irmãs», é a melhor narrativa de Woody Allen como espelho da sociedade contemporânea, sendo um filme que deve ser visto com mais atenção na parte do "coração" e que toca ainda mais os grandes fãs do realizador. Uma das coisas que faz a vida valer a pena, é ter a oportunidade de ver obras como esta.

* * * * *
_________________
À Beira do Abismo
Companhia das amêndoas
Back to top
View user's profile Send private message Send e-mail Visit poster's website MSN Messenger
Display posts from previous:   
Post new topic   Reply to topic    Fórum Mistério Juvenil Forum Index -> O CINEMA E O CINEMA PORTUGUÊS All times are GMT
Page 1 of 1

 
Jump to:  
You cannot post new topics in this forum
You cannot reply to topics in this forum
You cannot edit your posts in this forum
You cannot delete your posts in this forum
You cannot vote in polls in this forum


Powered by phpBB © 2001, 2005 phpBB Group