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rui sousa
Joined: 13 Dec 2006 Posts: 1203 Location: Nasci no Porto mas vivo em Lisboa
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Posted: Fri Dec 20, 2013 9:49 pm Post subject: Hiroshima, Mon Amour (1959) - Alain Resnais |
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| Quote: | Depois de ter sido apresentada no Festival de Cannes deste ano, a versão restaurada de Hiroshima, Meu Amor chega agora às salas portuguesas, numa cópia digital em 4K, que relembra o impacto e a polémica de um dos filmes mais inovadores do Cinema francês.
É o título mais reconhecido do realizador Alain Resnais (que fez também O Último Ano em Marienbad e outras fitas francesas que se tornaram célebres) e um dos romances mais inesquecíveis e fascinantes da História do Cinema: Hiroshima, Meu Amor é a história da relação entre uma atriz francesa (onde vemos alguns mistérios em relação ao seu verdadeiro caráter), que está na cidade a participar num filme anti-guerra, e um arquiteto japonês. Em conflito neste amor cinematográfico estarão as culturas distintas, os dramas íntimos de cada um deles e a complexidade das suas vidas e das suas formas diferentes de encarar o mundo, postas à prova com as sucessivas recordações da tragédia nuclear de Hiroshima.
Encontramos Emmanuelle Riva no papel que a celebrizou no panorama mediático do Cinema, e que, passados mais de cinquenta anos, continua a ser uma das forças maiores da obra de Resnais. Estava previsto ser um documentário sobre o legado triste e prejudicial que a bomba deixou no povo de Hiroshima, mas o cineasta quis acrescentar a parte ficcional ao realismo das imagens e das histórias de vítimas (que vemos e ouvimos em certas cenas) e, lado a lado com a tragédia, contemplamos uma intrigante e inspirada história de amor.
Riva é acompanhada por Eiji Okada na personagem do seu amante oriental, e com eles vemos um tipo de Cinema diferente, que não arrisca em experimentar coisas novas. Estamos na época de ouro das fitas francesas, com a Nouvelle Vague a revolucionar a Arte, e nomes como Jean-Luc Godard e François Truffaut a descobrirem novos mundos para o mundo cinematográfico. E sendo diferente nas novidades técnicas e narrativas que decide explorar, Hiroshima, Meu Amor é um filme-chave desta época gloriosa para o Cinema, e que mantém ainda a frescura e a rebeldia que aquela geração de realizadores concretizou no grande ecrã.
Curiosamente, o argumento do filme é da autora Marguerite Duras, naquele que foi no seu primeiro trabalho de escrita para Cinema. E é através da história imaginada pela escritora, e de todo o ambiente de tragédia e de memórias horríveis que a circula, que encontramos este casal improvável. Improvável é, também, todo o conceito e conteúdo de Hiroshima, Meu Amor, e é isso que faz com que esta obra seja tão especial entre multidões de cinéfilos de todo o mundo.
A relação intercultural é possuída pelo impacto do drama que para sempre ficará associado a Hiroshima, e o filme olha a tragédia com um toque chocante e perturbador, devido à brutalidade das imagens associadas ao ataque nuclear que vemos durante a narrativa – e essa brutalidade não está incluída só nas imagens reais, como também nos momentos em que vemos a cultura japonesa e a forma como esta ficou afetada pelo incidente. Veja-se a cena do desfile, em que podemos ler alguns cartazes que apelam à não-utilização de bombas nucleares existentes ainda pelos quatro cantos do planeta (estamos em plena Guerra Fria, convém não esquecer). E não será a brutalidade das recordações tão ou mais dolorosa do que a exposição à brutalidade física que é ver a destruição de Hiroshima após a bomba? E porque é que as personagens não podem “negar a óbvia necessidade de recordar” estes problemas que marcam constantemente a Humanidade?
Contudo, não é a tentativa de desconstrução do acontecimento pela dupla de personagens o ponto central da trama, mas sim todos os problemas existenciais e psicológicos que estão inerentes aos dois protagonistas. Vemos o contacto dos corpos, as manifestações de amor por parte do casal, as contrariedades daquela relação e as dúvidas que sentem tanto um pelo outro como pelas vidas de que são “possuidoras”. E todo o jogo amoroso e sentimental posto em prática é elevado pela potente carga filosófica do filme, e pelo experimentalismo de Alain Resnais que ainda consegue surpreender e deslumbrar. Eis o poder do eterno Cinema: exercer a Arte do Fascínio Ontem, Hoje e para Sempre.
Hiroshima, Meu Amor é um filme que deve ser bem digerido. É uma obra repleta de convicções e de ideias que continuam a ser controversas e visualmente cativantes, fruto da inventividade de um realizador que começou a dar, com este título, os primeiros passos para a sólida e vasta filmografia, e que ainda não parou de construir (está a terminar a produção de uma nova película, a estrear no próximo ano, Aimer, Boire et Chanter). Ainda é um filme inventivo e inovador, em que as personagens têm preocupações e inquietações que se superiorizam em relação à alma humana.
Na perigosa e turbulenta era nuclear, Hiroshima revive a memória todos os dias (nem que seja em modo de espetáculo eufórico e alegórico), e receia que toda a destruição volte a acontecer. E foi o trauma deste incidente em particular, e da Guerra no geral, que moldou as personagens a serem o que vemos no ecrã. As tristes recordações do homem e da mulher, onde colidem tragédias, rumores e perturbações, não param de cercar o espectador e de o fazer constantemente questionar-se sobre o que está a visionar.
O visionamento passa num instante, mas o impacto fica, e o sentimento também: Hiroshima, Meu Amor é ainda um filme que primeiro se estranha, mas que depois, e a pouco e pouco, se vai entranhando na mentalidade, na intimidade e nos pontos mais frágeis do ser humano. Obra labiríntica que pode tomar vários caminhos interpretativos, é uma reflexão profunda que age como um despertar cinematográfico para uma nova forma de se fazer Cinema, e dessa rebeldia da Nouvelle Vague que queria impor a sua nova visão das coisas no meio de um mercado estandardizado (e que ainda hoje continua a ser assim).
Tal como o tema histórico que retrata, o lado romântico e ficcional da obra não irá cair no esquecimento do mundo cinematográfico, assim como as confissões, os desejos e as dúvidas que afligem as personagens (principalmente a figura de Emmanuelle Riva, que parece ter sempre mais alguma coisa para desmascarar na sua personalidade aparentemente vaga e inocente). Não é um filme que se vê pura e simplesmente, é um filme que deve ser vivido. E esta nova cópia digital atribui uma nova dimensão à obra que, com mais de cinquenta anos, ainda consegue surpreender e questionar gerações. |
In http://www.espalhafactos.com/2013/12/20/hiroshima-meu-amor-quando-um-classico-refresca-a-atualidade/ _________________ À Beira do Abismo
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