Fórum Mistério Juvenil Forum Index Fórum Mistério Juvenil
Grupo dos amigos do Mistério Juvenil
 
 FAQFAQ   SearchSearch   MemberlistMemberlist   UsergroupsUsergroups   RegisterRegister 
 ProfileProfile   Log in to check your private messagesLog in to check your private messages   Log inLog in 

Citizen Kane (1941) - Orson Welles

 
Post new topic   Reply to topic    Fórum Mistério Juvenil Forum Index -> O CINEMA E O CINEMA PORTUGUÊS
View previous topic :: View next topic  
Author Message
rui sousa



Joined: 13 Dec 2006
Posts: 1203
Location: Nasci no Porto mas vivo em Lisboa

PostPosted: Mon Jan 27, 2014 4:08 pm    Post subject: Citizen Kane (1941) - Orson Welles Reply with quote



Old age... it's the only disease, Mr. Thompson, that you don't look forward to being cured of.

Filme de decadências e traições, obra sobre Poder e declínio, película marcante da História do Cinema Americano. «Citizen Kane» não é o melhor filme dos tempos porque, felizmente, a arte cinematográfica é tão vasta e excecional que se torna difícil escolher uma grande obra que se destaque entre todas as outras grandes. Mas sem dúvida, a primeira e mais conhecida realização de Orson Welles é um dos trabalhos mais notáveis da Sétima Arte, e figura com toda a justiça no Panteão das maiores obras primas da História das obras primas do Cinema. Foi uma proeza técnica para o seu tempo (apesar da maioria das inovações serem de descoberta anterior a este projecto - no entanto, Welles aperfeiçoou-as e levou os mecanismos a mares cinéfilos nunca antes navegados), e na contemporaneidade permanece como um filme arriscado para os padrões de “consumo” cinematográfico (a câmara não é "bem comportada", filmando de ângulos pouco usuais e que foram pouco favoráveis para os padrões da época - e talvez hoje em dia sejam difíceis de compreender pelo "comum dos mortais"). «Citizen Kane» não só contribuiu para dar um novo impulso às Imagens em Movimento, como auxiliou a tornar maior e mais imperceptível a Arte da Ilusão proporcionada aos espectadores por essas imagens. Porque se o Cinema envolve o manipular o melhor possível o espectador, o filme envolve o público na teia complexa e fascinante da obscura vida de Charles Foster Kane, dos seus amigos e da falha das relações humanas, que cresce à medida que o seu Império torna proporções ainda mais gigantescas (mas se as posses de Kane aumentam, isso não corresponde à cada vez maior falência económica da sua "indústria").



Não é só a grandiosidade e o lado espalhafatoso de Kane, que indica a sua crescente ruína, que faz de «Citizen Kane» um filme tão marcante. É de notar o valor que se dá à deterioração da grande amizade que unia o protagonista e Jedediah Leland (Joseph Cotten num excelente papel), que se afastam porque Kane perdeu gradualmente os valores éticos (e uma certa Declaração de Princípios por ele escrita e assinada quando comprou o jornal «Inquirer») que o motivaram a iniciar a sua demanda pelo mundo da comunicação social e, mais tarde, por outras vertentes da vida social e urbana dos Estados Unidos da América. Ao rejeitar aquilo que acreditava e que o fez subir a ambições mais altas do que poderia imaginar, vemos os desejos de Kane alterarem-se segundo as relações de poder que estabelece, e pela contínua e mais abrangente importância e mediatismo que atinge na sociedade americana. Mas apesar de todo o poder que detém com o seu Império, Kane é um homem impotente, por nunca conseguir ter aquilo que realmente quer. Apoiando-se no colecionismo obsessivo e exacerbado de obras de arte e suas afinidades (culminando na construção da inacabada e caríssima Xanadu - cujo custo, segundo ouvimos na "newsreel" do filme, nenhum homem conseguirá descobrir), Kane tenta colmatar as faltas que tem na sua vida e que, mesmo tendo todo o dinheiro e poder de influências do mundo, nunca conseguirá compensar. Faz crescer coisas sem motivos definidos, porque assim pensa que está a usar o seu poder e a fazer aquilo para o qual ele "serve", mas nunca conseguirá ficar satisfeito. A grandeza, a sua prepotência e a sua arrogância, afinal, não passam uma máscara que esconde os seus segredos, as suas falhas, o seu lado nostálgico, e essa palavra tão misteriosa, que um jornalista tentará descobrir qual será o seu significado para a vida do decadente e frio Charlie Kane: "Rosebud"!



O problema da elevada aclamação que «Citizen Kane» ao longo das décadas é o mesmo que muitas obras primas praticamente unânimes sofrem no seu processo de intemporalidade: ao serem demasiado estudadas e analisadas, talvez os críticos e investigadores percam a noção de que este é um filme que, como qualquer outro, requer desconhecimento total do seu conteúdo. Infelizmente, muitos de nós já visionaram o filme sabendo, afinal, o que é “Rosebud” (a famosa chave para o carácter e a vida de Charles Foster Kane), mas há todo um espólio cinematográfico que, tal como as maravilhas do império megalómano de Xanadu construído pelo magnata (não esquecer também a megalomania do cineasta, que se repetiria no seu filme seguinte para a RKO, «The Magnificent Ambersons»), é um regalo para a vista e para a sensibilidade dos mais cinéfilos. E descobrir a história de bastidores do filme, e a forma como o aparente visado da trama, o real William Randolph Hearst, tentou a todo o custo que «Citizen Kane» fosse espezinhado e desprezado pelo seu país (o que envolveu algumas ameaças ao jovem criativo Orson Welles) é também outra delícia que nos proporciona outra visão sobre esta história excecional. Welles recusou, ao longo de toda a sua vida (e durante todos os anos em que foi "massacrado" com esta sua primeira obra, que é apenas uma pequena parte de uma vasta e inovadora filmografia, única no circuito americano), dizer que o seu Kane é uma cópia exata de Hearst, mas trata-se sim, de uma amálgama de histórias de vida. Porque afinal, o que vemos da decadência de Kane não é mais do que o que a experiência humana nos mostrou várias vezes noutros casos reais. Contudo, todas as histórias sobre ascensão e queda saem valorizadas pelo seu lado original, e pelo facto de que, apesar da vida parecer convencional, aquilo que tiramos dela nunca poderá encaixar-se nos parâmetros rígidos da vulgaridade. E pode ter sido, na época, um brutal fracasso de bilheteira (apesar da grande campanha publicitária e da polémica em volta de Hearst), e perdeu nos Oscars para «O Vale Era Verde» de John Ford. Mas hoje, e tal como em 1941, «Citizen Kane» é uma das obras mais fulgurantes e angustiantes sobre os pequenos lugares-comuns e as grandes surpresas da essência da humanidade.



É de louvar os atores do «Mercury Theatre», muitos a darem os primeiros passos no Cinema, mas que fornecem interpretações brilhantes de uma qualidade que vários artistas com uma carreira já estabelecida nunca conseguiriam alcançar. É de elogiar a banda sonora de Bernard Herrmann, o seu primeiro trabalho como compositor, e que aqui mostra as bases de melodias mais negras e obscuras como seriam as que ele faria para vários grandes filmes de Alfred Hitchcock, que ficam indissociáveis da música que os acompanha. Herrmann aumenta o ambiente de angústia existencial proporcionado pela decadência psicológica de Kane e de todos os que dele dependeram, crescendo o Vazio sentimental que tanto nos fascina, como nos arrepia, nos momentos mais tristes e complexos da narrativa. «Citizen Kane» recriou a alma humana destruída, nos moldes que inspirariam muitos filmes posteriores (um dos exemplos mais recentes é o percurso auto-destrutivo de Daniel Plainview, interpretado pelo Oscarizado Daniel Day-Lewis em «There Will Be Blood»), num dos exemplos mais genuínos e negros dos efeitos da prepotência humana. Quando a felicidade, afinal, reside nas pequenas coisas, nem o maior dos magnatas consegue resistir mentalmente àquilo que a sua memória insiste sempre em tocar. Quem dera a muitos fazerem uma longa-metragem de estreia tão genial como a de Orson Welles (que foi beneficiado pela total liberdade criativa oferecida pela RKO), que deve também, neste resultado final, ao trabalho de fotografia (que o próprio reconheceu, colocando o responsável ao lado do nome do realizador nos créditos finais do filme). Mesmo que já saibamos o final ou já tenhamos visto a fita mais do que uma vez (como é o meu caso), «Citizen Kane» é daqueles raros casos cinematográficos que se torna mais perturbante e revelador a cada novo visionamento, sendo um filme praticamente novo a cada visionamento. Estando ou não nos tops que elegem os melhores filmes de todos os tempos, este é sem dúvida um marco incontornável da cultura mundial.

* * * * *
_________________
À Beira do Abismo
Companhia das amêndoas
Back to top
View user's profile Send private message Send e-mail Visit poster's website MSN Messenger
Display posts from previous:   
Post new topic   Reply to topic    Fórum Mistério Juvenil Forum Index -> O CINEMA E O CINEMA PORTUGUÊS All times are GMT
Page 1 of 1

 
Jump to:  
You cannot post new topics in this forum
You cannot reply to topics in this forum
You cannot edit your posts in this forum
You cannot delete your posts in this forum
You cannot vote in polls in this forum


Powered by phpBB © 2001, 2005 phpBB Group